Relação entre alimentação e antropologia: análise completa

A partir da década de 1950 os antropólogos deram atenção mais significativa ao estudo da alimentação como um elemento cultural e ideológico. Partiam, geralmente, de uma perspectiva culturalista, ou seja, estudavam a comunidade atentando-se às crenças, padrões de uma “cultura tradicional” o que poderia representar considerações erradas em sociedades mais modernas.

 

Sob o ponto de vista da alimentação, os trabalhos mostravam as fontes de alimentação, geralmente em uma economia de subsistência, hábitos e crenças na produção, preparo e consumo dos alimentos bem como na dieta alimentar. Mostravam, ainda, os setores sociais que mais se alimentavam, a importância das mulheres para a alimentação, que desde de crianças são preparadas para a tarefa, a classificação dos alimentos em situação de doença e de gravidez, por exemplo.

 
Nas décadas de 1940 a 1960, alguns antropólogos e a própria Comissão Nacional de Alimentação do Ministério da Saúde fizeram uma série de questionários e inquéritos que auxiliavam o governo na hora de promover programas de saúde em relação a esse aspecto.

 

Sobre a comissão seu estudo sobre os conceitos de saber (valorando certos alimentos para determinadas situações como a gravidez) e tabu (“proibindo” certas misturas de alimentos”) foi importante para o conhecimento antropológico dos alimentos, apontando deficiências calóricas e a sua razão como herança cultural e econômica da sociedade.

 

Lembre: 1 a cada 8 pessoas passa fome no mundo tão moderno de hoje.

Se distanciando da perspectiva comunitarista Mello e Sousa estudou a produção dos meios de sobrevivência e a organização social do ambiente. Para ele, a tecnologia empregada na produção era muito relevante na alimentação das pessoas para superar as condições adversas do local.

 

Embora, nota-se que há uma diminuição no consumo de produtores de subsistência que passam a organizar-se de forma capitalista, substituindo os seus alimentos mais conhecidos por outros. Relevante, também, é que as proibições religiosas e a superstição fazem as pessoas a se afastarem de alguns alimentos, principalmente durante um período fixo de tempo, caso da quaresma e da gravidez, ou do próprio medo de se misturar algumas comidas.

 

 

 

Novas contribuições antropológicas:

A partir da década de 1970, com a expansão do capitalismo e da urbanização no Brasil, deterioração da saúde dos trabalhadores mais pobres, do maior apoio governamental, assim como a criação de órgãos públicos e a institucionalização das ciências sociais houve um aumento nas pesquisas sobre a alimentação do povo. Essas pesquisas mostraram, em suma, uma alimentação calórica suficiente das classes mais ricas, mas, extremamente deficiente nas mais pobres, destaca-se a falta de cálcio, retinol (vitamina A), tiamina, riboflavina e ácido ascórbico (vitamina C), por exemplo. Surgem, então, diversas pesquisas sobre o assunto.

 

 

 


Gross ao estudar a alimentação de um grupo de trabalhadores rurais f
ez a primeira associação entre a importância da família e o consumo, ele comprovou que os filhos desses trabalhadores consumiam ainda menos calorias que seus pais (estes que se alimentavam de modo insuficiente), o que ocasionava um baixo crescimento e desenvolvimento.

 

 

 Velho preferiu destacar que para compreender os hábitos alimentares era necessário compreender as práticas sociais do grupo, ou seja, como eles interpretavam sua relação com a natureza, sociedade e como eles viam a própria importância da comida.

 

 

 

 

Maués e Maués ao estudar sobre os alimentos “reimosos” (impuros, que fazem mal) fazem uma associação com o totemismo de Lévi-Strauss, considerando-os como um sistema para-totêmico de classificação, assim, para o autor, os alimentos impuros devem ser afastados dos impuros (entenda-se alguém em uma circunstância especial, como doença).

 

 

 

 

Woortmann aponta a relação entre os alimentos e o organismo diz ele que as classificações alimentares (forte/fraco, por exemplo) remontam a como vemos as outras categorias como saúde/doença, dia/noite, racional/emocional, por exemplo. Para ele, interessa ao antropólogo o fato do modelo alimentar exprimir uma teoria medico-alimentar.

 

 

 


Woortmann ao definir por um modelo etno-científico que os padrões alimentares são influenciados por uma “ estratégia de sobrevivência
” e por “princípios ideológicos pelo qual se procura otimizar a relação alimento/organismo” não consegue explicar a historicidade de algo que é sempre sujeito a variação seja de interpretação de um mesmo fato seja de transformações pela própria “força social”.

 

 

Alguns autores também destacam como Brandão a importância da ideologia alimentar para entender o consumo de alimentos. Para entender essa ideologia é necessários entender dois elementos classificatórios: o ambiente pode ser apropriado ou não para o uso humano; a produção e o consumo do que é visto como “comestível” e um etiológico a qualidade dos alimentos e seus efeitos no corpo. Brandão, não admite, um único sistema que defina os “tabus” para os alimentos para ele as proibições são traduzidas pelas relações de troca e facilidade ou não na obtenção entre homem e natureza, relevando as visões de mundo e a sociedade para os padrões alimentares.

 

 

Consumo Alimentar:

A família tem um relevante papel na alimentação, visto que muitas pesquisas estudaram e mostraram que os níveis dos salários relacionavam-se com diferentes quantidades calóricas. O padrão de consumo não varia só com o salário, mas também, coma profissão, idade e sexo da pessoa que necessita de quantidades calóricas diferentes.

 

 

 

 

Esse padrão era menor quanto maior fosse a dependência da família para com um trabalhador que recebesse um salário, o que ocasionava outros problemas sociais como desestruturação da família, subempregos de outros membros, saídas das escolas, por exemplo.

 

 

Entre as famílias de renda mais baixas fica claro que mesmo que a conjuntura social mude a alimentação sempre será o núcleo dos gastos; as compras são, geralmente, feitas a crédito não só em supermercados, mas, principalmente, em mercados e armazéns próximos a casa e feito em pequenas quantidades, conforme a necessidade. Os alimentos escolhidos são os mais calóricos e necessários como: arroz, feijão, sal, farinha e leite em detrimento dos mais caros e “menos necessários” como carnes e verduras.

 

 

 

Se, geralmente, cabe aos homens a tarefa de prover o sustento às mulheres, que são desde de jovens treinadas para serem futuras donas de casa, cabe o papel de gerenciar os alimentos, são elas que devem fazer o controle racional das quantidades, da economia e da estética dos alimentos, que no caso de famílias de classe social mais baixa se resume basicamente a arroz e feijão com poucas quantidades de carne.

 

 
Os cardápios ainda que bastante influenciados pela situação econômica da família, são também refletidos em datas especiais seja de origem social, religiosa ou mesmo pessoal como em um aniversário. Variam também conforme a idade, sexo condição de saúde, o que caracteriza os alimentos em forte/fraco, pesado/leves, por exemplo.

 

 
Os que têm salário baixo aspiram uma condição alimentar melhor, que, por conseguinte seria adquirida via elevação social, a alimentação é vista como um aspecto social que revela uma situação de ricos e pobres. Para os últimos a alimentação é algo que permite “viver, trabalhar e sobreviver”.

 

 

Resumindo:

Os estudos antropológicos sobre este tema que remontam a produção e a reprodução da força de trabalho relacionado aos hábitos alimentares das diversas classes sociais demonstraram como elas enxergam o mundo, suas concepções sobre natureza e sociedade, influenciados sobre a ordem socioeconômica, devendo serem vistas, nas suas mais diversas particularidades entre os diversos setores sociais.

 

 

 

 
Cabendo aos antropólogos estudarem não só as estruturas das forças de trabalho no contexto de se conseguir ou não suprir as necessidades calóricas como, também, entender o impactos das políticas governamentais sobre a população.

 

 

 

 

 

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